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# O que é WebRTC?

A tecnologia por trás das chamadas no navegador, por que ela precisa descobrir os endereços da sua rede e como isso pode revelar seu IP mesmo com uma VPN ativada.

Antes, chamadas de vídeo precisavam de um aplicativo baixado. Agora, um link no seu navegador é suficiente. O que mudou — e por que uma ferramenta de privacidade se importa com isso?

## Mídia em tempo real, integrada ao navegador

**WebRTC** significa Comunicação em Tempo Real pela Web. É um conjunto de recursos integrados a todos os navegadores principais que permite que uma página da web envie e receba áudio, vídeo e dados ao vivo.

Reuniões por vídeo, bate-papo por voz via navegador, compartilhamento de tela, chamadas de suporte ao cliente na própria página, alguns jogos online e algumas ferramentas de transferência de arquivos usam isso. Sem plugin, sem instalação.

A decisão de design importante é esta: para mídia ao vivo, o WebRTC tenta enviar os dados **diretamente entre os dois participantes** sempre que possível, em vez de encaminhar tudo pelos servidores de uma empresa.

Essa escolha faz sentido. Um caminho direto é mais curto, então a chamada tem menos atraso. Além disso, custa muito menos para o serviço, porque ele não paga para transportar cada segundo de cada chamada.

Mas uma conexão direta precisa de algo que a navegação web comum nunca precisa: cada lado precisa saber como o outro lado pode ser alcançado.

## Por que ele precisa procurar endereços

Aqui está o problema. Quase ninguém está diretamente na internet. Como explicado em [Endereços Públicos, Privados e CGNAT](/knowledge-base/pt-br/concepts/public-private-cgnat.md), seu dispositivo fica atrás de um roteador com um endereço privado como `192.168.1.14`, o que não significa nada para ninguém fora da sua casa. Seu provedor pode adicionar uma segunda camada por cima disso.

Então, o seu navegador realmente não sabe qual é o seu próprio endereço público e, certamente, não sabe qual combinação de endereço e porta a outra parte pode usar para alcançá-lo.

O WebRTC resolve isso reunindo opções.

* Ele lista os endereços que consegue ver localmente — o privado na sua rede e qualquer endereço IPv6.
* Ele pergunta a um servidor auxiliar na internet, chamado **servidor STUN**, uma pergunta simples: "qual endereço você vê esta mensagem vindo?" A resposta informa o endereço público e a porta de onde o seu tráfego parece vir depois de passar pelo NAT.
* Se a conexão direta acabar sendo impossível, ele recorre a um **servidor de relay** (TURN), que encaminha a mídia. Isso funciona em qualquer lugar, mas custa mais e adiciona atraso.

Cada opção que ele coleta é chamada de um **candidato**. Ambos os lados trocam suas listas de candidatos e depois testam combinações sistematicamente até uma funcionar. Todo esse procedimento de tentativa e erro é chamado de **ICE** — Interactive Connectivity Establishment. É uma forma formal de dizer: reúna todas as maneiras possíveis de ser alcançado, troque as listas e use o pareamento que funcionar primeiro.

```mermaid
flowchart LR
    Y["Seu navegador"] -->|"qual endereço<br/>você vê?"| S["Servidor STUN"]
    S -->|"203.0.113.42:54321"| Y
    Y -->|"lista de candidatos"| P["O outro participante"]
    P -->|"lista de candidatos"| Y
    Y -.->|"mídia direta, se possível"| P
```

## Por que isso pode revelar seu IP atrás de uma VPN

Agora a consequência para a privacidade fica clara.

Uma VPN funciona capturando o seu tráfego e enviando-o por um túnel criptografado. Os sites então veem o endereço da VPN em vez do seu. Isso funciona bem para a navegação normal, em que todo o tráfego segue a mesma rota que seu sistema operacional foi instruído a usar.

O WebRTC não segue simplesmente essa única rota. Ele enumera deliberadamente todos os endereços e todos os caminhos que pode usar, porque todo o seu propósito é encontrar uma forma de passar. Dependendo de como o seu sistema e a VPN estão configurados, essa enumeração pode revelar:

* seu endereço público real, se parte do seu tráfego escapar do túnel — uma **configuração de túnel dividido** ou uma VPN por extensão de navegador que cobre apenas as requisições de página do navegador
* sua **IPv6** endereço IPv6, se a VPN transportar apenas IPv4 e deixar o IPv6 de fora; essa é uma causa muito comum
* sua **endereço da rede local**, que não identifica você globalmente, mas revela detalhes sobre sua rede

Uma página pode ler esses candidatos com uma pequena quantidade de JavaScript. Ela não precisa de permissão e não precisa ativar sua câmera ou microfone. É isso que as pessoas querem dizer com um "vazamento de WebRTC": não uma falha no WebRTC, mas uma incompatibilidade entre o que o WebRTC foi projetado para fazer e o que um usuário de VPN assume que está acontecendo.

## Lendo os endereços que um teste mostra para você

Um teste de WebRTC normalmente lista vários candidatos ao mesmo tempo. Eles não têm a mesma relevância.

| O que você vê                                 | O que isso significa                                                                                     |
| --------------------------------------------- | -------------------------------------------------------------------------------------------------------- |
| Algo que termina em `.local`                  | O marcador de privacidade do navegador para o seu endereço local. Normal, e funcionando como pretendido. |
| `192.168.x.x`, `10.x.x.x`, `172.16–31.x.x`    | Um endereço real da rede local. Revela o layout da sua rede, não a sua identidade.                       |
| Um endereço público que corresponde à sua VPN | Correto. O túnel está cobrindo o WebRTC.                                                                 |
| Um endereço público que é *não* da sua VPN    | Um vazamento. Este é o que importa.                                                                      |
| Um endereço IPv6 enquanto sua VPN mostra IPv4 | O vazamento mais comum de todos — sua VPN não está transportando IPv6.                                   |

A comparação útil é sempre entre os endereços que o WebRTC encontra e o endereço mostrado por uma solicitação web normal. Se eles discordarem, algo está escapando do túnel.

## O que os navegadores fazem a respeito

Os navegadores vêm apertando esse cerco ao longo dos anos.

* **Os endereços locais são ocultados por padrão.** Em vez de expor seu verdadeiro endereço privado, os navegadores agora fornecem um marcador aleatório — um nome mDNS que termina em `.local` — a menos que a página já tenha recebido acesso à câmera ou ao microfone.
* **Menos endereços são coletados antecipadamente.** Os navegadores modernos coletam um conjunto mais restrito de candidatos até que uma chamada esteja realmente sendo configurada.
* **Há configurações de política.** Alguns navegadores e extensões permitem restringir o WebRTC apenas à rota padrão, ou desativá-lo por completo.

Isso ajuda, mas não encerra o caso. Um endereço público descoberto via STUN ainda é um endereço público, e a lacuna de IPv6 é um problema de configuração do seu lado, não algo que o navegador possa corrigir para você.

Desativar o WebRTC completamente é uma opção, com um custo óbvio: chamadas de vídeo no navegador param de funcionar. Para a maioria das pessoas, é melhor corrigir o vazamento subjacente — usar uma VPN que lide com IPv6, ou uma que opere no nível do sistema em vez de apenas dentro do navegador.

## Equívocos comuns

**"WebRTC é spyware."** É um recurso padrão para mídia em tempo real, usado por ferramentas das quais você depende. A descoberta de endereços é necessária para que a conexão aconteça.

**"Um vazamento de WebRTC significa que minha VPN está quebrada."** Mais frequentemente, isso significa que sua VPN está incompleta — geralmente sem IPv6, ou cobrindo apenas os carregamentos de página do navegador.

**"Se o teste mostrar um `.local` endereço, estou vazando."** Não. Esse é o marcador de privacidade do navegador funcionando corretamente. O que importa é se aparece um endereço público real que não seja o da sua VPN.

**"O modo anônimo impede isso."** Não impede. O modo anônimo afeta armazenamento e histórico, não o comportamento da rede.

{% hint style="info" %}
**Veja você mesmo no MyIP**

O **WebRTC Leak Test** No painel, ele faz exatamente esse processo de descoberta e mostra todos os endereços que o WebRTC encontra. Se a sua VPN estiver ativa e um desses endereços não for o da sua VPN, as configurações de proxy não estão cobrindo essas conexões. Ele também estima seu tipo de NAT — contexto útil para jogos e chamadas, embora a detecção seja uma melhor estimativa e não uma certeza.

Guia completo: [Teste de WebRTC](/knowledge-base/pt-br/connection-tools/webrtc-test.md).
{% endhint %}

## Conceitos relacionados

* [Endereços Públicos, Privados e CGNAT](/knowledge-base/pt-br/concepts/public-private-cgnat.md) — as camadas de NAT que o WebRTC contorna
* [IPv4 vs IPv6](/knowledge-base/pt-br/concepts/ipv4-vs-ipv6.md) — por que IPv6 é o caminho de vazamento mais comum
* [Latência, Jitter e Perda de Pacotes](/knowledge-base/pt-br/concepts/latency-jitter-packet-loss.md) — as métricas que decidem se uma chamada soa bem
* [Estou vazando meu IP real?](/knowledge-base/pt-br/diagnose/am-i-leaking-my-real-ip.md) — a checklist completa de vazamentos


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